Shamar: O que significa “guardar” os mandamentos em hebraico
Ao estudarmos a Lei de Moisés encontrada nos livros de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, reconhecemos que, embora muitas de suas regulamentações antigas específicas não se apliquem mais a nós, ainda estamos vinculados pelos convênios sagrados que renovamos a cada semana no sacramento, incluindo a promessa de guardar os mandamentos.
Na Igreja moderna, frequentemente nos deparamos com mandamentos que vão desde os profundamente espirituais até os aparentemente mundanos. No entanto, a Bíblia Hebraica nos convida a ver essa obrigação de maneira esperançosa. Ela sugere que guardar os mandamentos é menos como marcar itens em uma lista e mais como cuidar de um jardim ou vigiar um rebanho de ovelhas. Em outras palavras, a Bíblia Hebraica enquadra o guardar os mandamentos principalmente como mordomia do convênio, em vez de desempenho sem erros.
A palavra mais frequentemente traduzida como “guardar” em frases como “guardar os mandamentos” é a palavra hebraica shamar (שָׁמַר). Embora certamente inclua o que fazemos e o que deixamos de fazer, ela não significa simplesmente desempenho impecável. Ela carrega o sentido de guardar, vigiar, preservar e cuidar de algo precioso.
A primeira vez que shamar aparece nas escrituras define o tom. Em Gênesis 2:15, Adão é colocado no Jardim do Éden “para o cultivar e o guardar”. Ao guardar o jardim, ele não está apenas obedecendo a uma lista de tarefas. Ele cuida, nutre e protege.
A mesma palavra aparece quando Caim pergunta: “Sou eu o guardador do meu irmão?” (Gênesis 4:9), e quando Jacó concorda em “guardar” os rebanhos de Labão (Gênesis 30:31). José a utiliza quando aconselha Faraó a “guardar” grãos em armazenamento contra a fome (Gênesis 41:35).
Em cada caso, shamar descreve mordomia e cuidado, não observância impecável.
Outras palavras hebraicas reforçam esse quadro mais amplo. A palavra natsar (נָצַר), também traduzida como “guardar”, igualmente transmite a ideia de vigiar ou preservar. Nos Salmos, a palavra natsar (נָצַר) é traduzida como “guardar” quando lemos: “Apartai-vos de mim, malfeitores, pois guardarei os mandamentos do meu Deus” (Salmo 119:115).
No entanto, a palavra natsar também é usada no livro de Jó, onde Jó chama Deus de “Guarda [natsar] dos homens” (Jó 7:20). Ela é usada em 2 Reis 18:8 para se referir a vigias em uma torre [natsarim]. Semelhante à instrução dada a Adão para cultivar e guardar o Jardim do Éden, Provérbios nos diz:
“O que guarda [natsar] a figueira comerá do seu fruto”.
E em Isaías 42, lemos:
“Eu, o Senhor, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guardarei [natsar], e te darei por convênio do povo, para luz dos gentios”.
Essa mesma ideia aparece na bênção sacerdotal sobre Israel:
“O Senhor te abençoe e te guarde [shamar]”.
Aqui, o “guardar” de Deus sobre Seu povo claramente significa cuidado vigilante e sustentador. As escrituras não apenas nos pedem para “guardar” os mandamentos de Deus; elas testificam que Deus é um “guardador” sobre nós.
Em contraste, quando as escrituras falam de “guardar” festas, ações rituais realizadas de uma forma prescrita, uma palavra diferente aparece: chagag (חָגַג), que significa celebrar ou observar uma festa. A distinção é reveladora.
Os mandamentos não são principalmente apresentados como rituais a serem executados, mas como relacionamentos e responsabilidades a serem guardados. Onde o ritual exige execução correta, o convênio exige presença fiel.
Estreitamente relacionada à palavra shamar (שָׁמַר) está a palavra hebraica shama (שְׁמַע). Embora shama seja a raiz mais comum para obediência no Antigo Testamento, nas 1160 vezes em que aparece na Bíblia Hebraica, ela é traduzida como “obedecer” (ou “obedeceu”, “obedecendo” etc.) cerca de 80 vezes.
Com mais frequência, é traduzida como alguma variação de “ouvir” (679 vezes) ou uma variação da palavra “escutar” (305 vezes). No hebraico bíblico, ouvir é inseparável de responder. Essa conexão entre obedecer e realmente “ouvir” ou “escutar” a Deus é agir com base no que se ouve. Não há uma linha nítida entre escutar e obedecer; eles fazem parte de uma única resposta viva.
Tomadas em conjunto, essas palavras ampliam nosso entendimento. “Guardar os mandamentos” não se reduz a marcar cada item sem falhar. É viver atentamente diante de Deus: ouvindo, guardando, cuidando e retornando quando nos desviamos.
Isso não diminui a obediência; aprofunda-a. Um jardineiro pode cometer erros. Ervas daninhas podem invadir o jardim. Frutos podem morrer por falta de água. Mas o jardineiro fiel não abandona o jardim. Algumas ovelhas podem se desviar. Lobos podem atacar. Mas o pastor não abandona o rebanho. Em ambos os casos, o trabalho continua. O compromisso permanece.
Assim é com o discipulado. Como os pastores de Israel descritos nos Salmos, aqueles que guardam convênios permanecem responsáveis mesmo quando as ovelhas se desviam.
Quando pecamos, arrependemo-nos. Quando falhamos, retornamos. Nesse sentido, não deixamos de “guardar os mandamentos” cada vez que erramos. Em vez disso, “guardar os mandamentos” é continuar a shamar: guardar e cuidar de nosso relacionamento de convênio com Deus, precisamente ao voltarmos para Ele.

Cristo não ignora nossos erros, Ele intercede por nós
Essa compreensão de “guardar” como fidelidade ao convênio, em vez de conformidade sem erros, ajuda a iluminar como Cristo advoga por nós diante do tribunal de Deus. Em Doutrina e Convênios 45, Cristo não é retratado como um advogado que argumenta que nossos pecados não foram tão graves ou que deveriam ser ignorados por causa das coisas boas que fizemos para compensar as ruins. Em vez disso, lemos:
Ouvi aquele que é o advogado junto ao Pai, que está pleiteando vossa causa perante ele —
Dizendo: Pai, contempla os sofrimentos e a morte daquele que não cometeu pecado, em quem te rejubilaste; contempla o sangue de teu Filho, que foi derramado, o sangue daquele que deste para que fosses glorificado;
Portanto, Pai, poupa estes meus irmãos que creem em meu nome, para que venham a mim e tenham vida eterna.
Ao pleitear nossa causa, Cristo não afirma que estamos sem pecado. Em vez disso, podemos ser salvos da morte espiritual porque Ele não cometeu pecado, se crermos em Seu nome e permanecermos fiéis ao relacionamento de convênio no qual entramos por meio das ordenanças.
Também pode ser significativo que o versículo seguinte não nos chame a “obedecer” (às vezes shama na Bíblia Hebraica). Em vez disso, somos chamados a “escutar” e “ouvir” (as traduções mais frequentes em inglês da palavra shama): “Atendei, ó povo de minha igreja, e vós, élderes, escutai juntos e ouvi minha voz enquanto hoje se chama, e não endureçais vosso coração.”
Cristo não está como um auditor rigoroso de nossas falhas. Ele está como nosso guardador, nosso Shomer (שׁוֹמֵר), pleiteando nossa causa, preservando nosso caminho e tornando possível que continuemos no convênio mesmo quando falhamos.
“Guardar os mandamentos”, portanto, não é apenas cumprir uma lista de instruções sem falhas. É permanecer engajado em um relacionamento vivo de confiança, cuidado, arrependimento e retorno. É guardar algo precioso, nosso relacionamento de convênio com Deus, e permitir que Ele nos guarde em retorno.
Sob essa luz, guardar os mandamentos é menos como acertar tudo perfeitamente e mais como cuidar de um jardim. Enquanto continuarmos voltando, arrependendo-nos e confiando Nele, não teremos falhado.
Fonte: Meridian Magazine
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