O que “A Odisseia” revela sobre o cansaço de viver em meio a polêmicas
“A Odisseia”, de Christopher Nolan, conta a história de um guerreiro tentando deixar a guerra para trás. E talvez a recepção calorosa do público indique que muitos de nós também estamos prontos para fazer o mesmo.
Quando o filme começa, a Guerra de Troia já acabou. Odisseu continua sendo um guerreiro, e boa parte de sua sobrevivência depende dos instintos desenvolvidos durante os combates. No entanto, apesar dos monstros, tempestades e estratégias que enfrenta, a grande questão da história não é se ele conseguirá vencer outra batalha, mas se conseguirá voltar para casa.
Uma das principais diferenças entre a adaptação de Nolan e a obra original está na forma como Odisseu encara a guerra. No poema de Homero, ele deixa o conflito como um vencedor orgulhoso e confiante.
Já na versão de Nolan, toda a jornada é motivada pelo desejo de se afastar da guerra, lidar com as escolhas que fez e preparar-se para retornar ao lar, um lugar onde precisará voltar a ser marido, pai, rei e membro de uma comunidade.
Em casa, ele precisará não apenas das virtudes de um guerreiro, mas também de ternura, paciência, fidelidade e misericórdia.
Sob essa perspectiva, “A Odisseia” deixa de ser apenas a continuação das aventuras de Odisseu e passa a representar sua luta para abandonar a guerra também em seu coração e em sua mente. Apesar de todo o espetáculo visual, o filme está profundamente interessado nas consequências emocionais do conflito.
Diversos críticos perceberam esse tom pacifista e destacaram a maneira como a obra aborda o trauma, a culpa e a transformação moral após a guerra.
Talvez esse tema também explique por que a reação do público parece ter sido mais significativa do que a de um simples blockbuster de verão. Antes mesmo da estreia, o filme já havia sido convocado para outra batalha: a guerra cultural. E, para surpresa de muitos que vivem desse conflito, a maioria das pessoas simplesmente se recusou a lutar.

Antes da estreia, o filme já era um campo de batalha
Muito antes de qualquer pessoa assistir a “A Odisseia”, os guerreiros culturais já estavam dissecando o filme. Uns reclamaram da escalação de Lupita Nyong’o como Helena de Troia, por ter a pele negra. Outros reclamaram da presença de Elliot Page no elenco.
Alguns críticos disseram que o filme ignorava a coerência histórica em nome de sinalizações progressistas. Outros pediram boicote porque, segundo eles, a produção não teria sido suficientemente respeitosa com as tensões envolvendo Marrocos, o Saara Ocidental e Dakhla, um conflito que, dependendo de quem conta, é descrito ora como ocupação, ora como disputa de fronteira.
Houve até quem tentasse convencer as pessoas de que Lupita Nyong’o seria uma atriz “feia”. A intenção era transformar “A Odisseia” em mais um referendo ideológico, mais um capítulo da disputa entre a cultura do cancelamento e a reação resumida na frase “go woke, go broke” (expressão em inglês usada por quem acredita que empresas “woke” acabam perdendo dinheiro por causa das próprias pautas).
Então o público foi ao cinema.
“A Odisseia” arrecadou 264,1 milhões de dólares no mundo todo só no fim de semana de estreia, a maior abertura em live-action do ano, a maior abertura em valores nominais de toda a carreira de Christopher Nolan, e um respiro num verão que vinha sendo fraco para o cinema. O público deu ao filme nota A no CinemaScore, e sua avaliação do público no Rotten Tomatoes chegou a 97%. A procura foi tão grande que alguns cinemas chegaram a adicionar sessões de madrugada.
Claro que ainda havia gente discordando, muitos dos que lucram com nossa indignação permanente dobraram a aposta. Mas a maior parte do público simplesmente assistiu a um filme. A polêmica deixou de ser a notícia principal; o filme passou a ocupar esse lugar.

Quando o método da guerra engole o que ela deveria proteger
Isso não significa que as questões envolvidas nas polêmicas sejam irrelevantes. Muitas delas tratam de assuntos importantes.
Talvez estejamos cansados de transformar tudo aquilo que torna a vida boa em mais um teste de lealdade ideológica.
Discutir se determinados filmes estão normalizando determinadas ideias sobre gênero pode ser importante. Mas isso não precisa transformar cada obra em um campo de batalha absoluto.
Talvez também seja aceitável que Christopher Nolan tenha convidado um velho amigo para participar de seu filme, independentemente das escolhas pessoais que esse amigo tenha feito.
Da mesma forma, é possível demonstrar verdadeira preocupação com a situação do povo saaraui sem exigir que um único filme carregue o peso de toda essa controvérsia apenas por causa dos locais onde foi gravado.
Essas questões, e tantas outras semelhantes, não devem ser ignoradas. Tampouco estou sugerindo que abandonemos convicções importantes apenas para evitar conflitos.
Mas o problema é que o próprio método da guerra cultural começou a consumir justamente aquilo que ela dizia estar protegendo. O conflito deixou de ser sobre se ideias estavam certas ou erradas e passou a ser sobre se pessoas eram boas ou más.
Cada escolha de elenco virava uma questão existencial. Isso dividiu famílias, amizades, congregações, comunidades e nações inteiras. Ter a opinião “errada” deixou de ser um desacordo a ser trabalhado e virou um perigo a ser esmagado. Quem discordava virava só um avatar a ser humilhado.
E como toda guerra precisa de soldados, primeiro a imprensa e depois as redes sociais passaram a usar propaganda para recrutar todo mundo.
E muitos de nós entramos nessa: já brigamos por causa do cabelo da Pequena Sereia, do cachorro policial de “Patrulha Canina”, do jeito do Cebolinha falar na Turma da Mônica, da escalação do remake de “Pantanal”, do comercial de fim de ano do Boticário com um casal gay, do beijo entre duas mulheres na novela “Segundo Sol”, do especial de Natal “A Primeira Tentação de Cristo”, do M&M verde e até de fantasia de Carnaval, entre dezenas de outras coisas.
“A Odisseia” estava se preparando para ser o próximo campo de batalha. As linhas de combate já tinham sido traçadas. E então, simplesmente, isso não aconteceu. Deixamos passar. Fomos assistir a um filme divertido, provavelmente sentados ao lado de alguém que acredita em algumas coisas erradas, na nossa opinião.

Rumo a Ítaca
Um filme de sucesso não significa que a guerra cultural está acabando, nem que estamos prontos para sair das nossas bolhas ou enxergar o outro lado como plenamente humano. Mas também não é algo sem importância.
Talvez tudo isso seja apenas uma trégua temporária, como o famoso cessar-fogo espontâneo ocorrido no Natal durante a Primeira Guerra Mundial, porque o filme realmente é muito bom. Ou talvez “A Odisseia” esteja revelando uma mudança real de apetite, uma mudança de coração.
Talvez estejamos cansados de ser informados sobre o que temos permissão para gostar. Talvez estejamos cansados de ver quase tudo o que torna a vida boa virar mais um teste de lealdade tribal. E talvez estejamos cansados de viver num mundo onde nada pode simplesmente ser o que é.
A cultura não resolveu as disputas em torno do filme. Nenhum lado saiu vencedor. Aconteceu algo mais significativo: a guerra cultural não teve a última palavra dessa vez.
A jornada de Odisseu lembra que as guerras terminam antes que os guerreiros aprendam a viver em paz. Voltar para casa é uma disciplina em si mesma, exige deixar de lado identidades construídas inteiramente em oposição a alguém, e resgatar os relacionamentos que o conflito empurrou para a margem.
Ainda não chegamos a Ítaca. Nossas divergências continuam, muitas delas importam, algumas, profundamente. Mas talvez estejamos começando a entender que uma vida com significado não pode ser construída inteiramente em torno de brigar por elas.
Fonte: Public Square Magazine
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Post original de Maisfé.org
