Não estás só: A presença de Cristo no meio da dor
Há momentos em que as atribulações da nossa vida, são difíceis até mesmo de nomear. Pode ser um diagnóstico, uma perda, uma espera que se arrasta sem resposta ou até algo que não sabemos explicar. Pode ser apenas acordar e perceber que as forças de ontem não estão mais lá.
Nesses momentos, uma pergunta pode surgir em nossa mente: Onde está Deus nisso tudo?
A resposta das Escrituras é consistente: Ele está aqui. Não necessariamente removendo o problema, mas caminhando ao nosso lado ao passarmos por ele.
Quando Deus não remove o fardo
O povo de Alma, no Livro de Mórmon, estava em cativeiro e nem podia orar em voz alta com medo de ser punido. O Senhor não os libertou imediatamente. Mas disse algo que ficou registrado: que aliviaria seus fardos para que eles nem os sentissem (Moisias 24:13–15). A libertação viria depois. Antes dela, veio a presença do Senhor.
Esse é um padrão que aprendemos nas escrituras, Deus nem sempre retira a dificuldade, mas fortalece quem a carrega. E há uma razão para isso. Em João 16:33, Jesus disse: “No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” Ele não prometeu que não teremos de dor. Prometeu vitória sobre ela, e a possibilidade de que nós também a experimentemos.
Rute e Noemi: ir quando não se sabe para onde
Noemi voltou de Moabe sem marido, sem filhos, sem perspectiva. Chegou ao ponto de pedir que mudassem seu próprio nome, de Noemi, que significa agradável, para Mara, que significa amarga (Rute 1:20). Imagina sofrer tanto a ponto de reconhecer que está se tornando uma pessoa amarga.
Rute, sua nora, havia perdido o marido também. Tinha todo motivo para voltar para a própria família, para um futuro mais seguro. Mas fez uma escolha que não fazia sentido do ponto de vista humano: ficou. Disse a Noemi as palavras registradas em Rute 1:16–17: “onde tu morreres, morrerei eu”.
Quando Rute chegou aos campos de Belém e Boaz a recebeu com bondade, ele disse algo que nos ensina o que é ter fé em situações assim: “que o teu galardão seja pleno da parte do Senhor, Deus de Israel, sob cujas asas vieste refugiar-te” (Rute 2:12).
Ele sabia que elas estavam passando por grande dificuldade e que buscavam viver o que o Senhor esperava delas, mesmo em meio aos problemas que estavam enfrentando.
A história de Rute e Noemi terminou em redenção. Mas nenhuma das duas poderia ter visto isso no momento da dor e do desespero. Elas só decidiram acreditar que o Senhor não as abandonaria e que fosse na vida ou na morte a misericórdia do Senhor as alcançaria.

Ana: o que fazer com uma dor que não passa
Ana queria ter filhos. E ano após ano, a resposta era silêncio. O texto de 1 Samuel 1 descreve o seu sofrimento: ela chorava, ela sofria, ela não conseguia comer. Ela foi ao templo e derramou sua alma diante do Senhor. Orou a ponto de Eli, o sacerdote, pensar que estava embriagada. Fez um voto, e depois, antes de qualquer resposta visível por parte de Deus: “foi-se, comeu, e já não estava triste” (1 Samuel 1:18).
Ela não havia recebido o filho no mesmo instante que orou, mas havia entregado toda a sua dor nas mãos Daquele que poderia cuidar dos problemas que eram maiores do que ela e estavam além de sua capacidade humana de resolver. E isso foi o suficiente para seguir em frente.
O Senhor ouviu, Samuel nasceu e a espera terminou. Mas vale á pena focarmos no momento que Ana viveu antes da resposta chegar, porque muitos de nós está passando exatamente por esse momento da história da nossa vida. Na lacuna entre o pedido e a resposta. E a história de Ana mostra que é possível encontrar paz nesse lugar, não porque a dor acabou, mas porque ela entregou nas mãos de Deus e decidiu não mais passar por aquilo sozinha.
E quando a resposta não vem nesta vida?
Seria desonesto da minha parte deixar subentendido que toda história termina como a de Rute ou a de Ana. Há pessoas que oram com a mesma intensidade de Ana e não recebem o que pediram. Que confiam com a mesma coragem de Rute e chegam ao fim da vida ainda com aquele mesmo problema sem ter recebido um final feliz. Mas Deus as ama da mesma forma.
O Élder David A. Bednar conta, no discurso “Aceitar a Vontade e o Tempo do Senhor”, que visitou um jovem chamado John que estava gravemente doente. Antes de dar uma bênção, o Élder Bednar fez uma pergunta que até hoje quando lembro desse discurso fico refletindo qual seria minha resposta no lugar daquele rapaz: “Sei que você tem fé para ser curado. Mas será que tem fé para não ser curado?”
John não havia pensado nisso antes. Mas depois de refletir com a esposa, respondeu que sim, que confiava na vontade e no tempo do Senhor, qualquer que fosse. Esse ato de submissão, descrito pelo próprio Élder Bednar como uma das batalhas espirituais mais difíceis que existe, é uma forma de fé que vai além do milagre. É confiar em Deus não pelo resultado, mas por quem Ele é.
No mesmo discurso, o Élder Bednar lembra o Élder Neal Maxwell, que enfrentou uma leucemia severa e resumiu sua experiência numa frase: “Aprendi que não recuar é mais importante do que sobreviver.” Maxwell não pediu para não sofrer. Pediu para não recuar.
Paulo pediu três vezes para ser liberto de algo que chamou de espinho na carne. A resposta foi não, mas veio acompanhada de uma promessa: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Coríntios 12:9). Paulo não foi curado, recebeu algo diferente: a evidência de que a graça de Cristo opera exatamente onde somos mais fracos.
Hebreus 11 lista homens e mulheres que “pela fé” fizeram coisas extraordinárias. E logo depois lista outros que, pela mesma fé, morreram sem receber o que esperavam, “dos quais o mundo não era digno” (Hebreus 11:38). A fé deles não era menor, o que era diferente era o tempo. Algumas promessas são grandes demais para caber nesta vida.

O azeite que se acumula dia a dia
A irmã Amy A. Wright, nos conta em seu discurso “Suportar o Dia” que ao receber um diagnóstico de câncer, não pediu ao Senhor que removesse a doença. Pediu forças para suportar o dia, esse dia, essa hora. Ela baseou essa postura na parábola das dez virgens (Mateus 25:1–13), onde cinco delas tinham azeite suficiente em suas lâmpadas e cinco não tinham.
O ponto da parábola não é que algumas pessoas são mais espirituais do que outras. É que o azeite não pode ser emprestado em momentos de crise, ele se acumula antes, nas práticas diárias que parecem pequenas: oração, estudo das Escrituras, participar do sacramento, templo, serviço. São essas coisas que mantêm a lâmpada acesa quando a noite é longa.
Em 2 Néfi 31:20, Néfi descreve esse caminho como avançar com firmeza em Cristo, com uma esperança que não depende das circunstâncias. E em Isaías 41:10, o Senhor promete: “Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo.”

O que Cristo realmente oferece
A presença de Cristo no meio da dor não é uma promessa de que tudo se resolverá da forma que esperamos. É algo diferente, e, com o tempo, percebemos que é o melhor para nós. É a paz que Ana sentiu antes de Samuel nascer. É o azeite que sustentou a irmã Wright dia após dia. É a fé de John de aceitar a vontade do Senhor mesmo sem saber o resultado. É o exemplo do Élder Maxwell que escolheu não recuar.
Seja qual for a sua situação, uma que ainda aguarda resolução, ou uma que talvez nunca se resolva do jeito que você espera nesta vida, Cristo pode estar presente nela. Não como solução automática, mas como companhia, como graça que opera onde você é mais fraco, como paz que não depende das circunstâncias estarem certas.
Ter bom ânimo significa não perder a fé e viver com alegria em meio as nossas dores, que possamos sempre nos lembrar que temos o melhor exemplo de todos, o Salvador!
“No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” — João 16:33
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Post original de Maisfé.org
