MaisFé.org

Por que Boaz faz alusão a um poço ao encontrar Rute?

Ao ler o livro de Rute, alguns elementos podem parecer vagamente familiares, embora de alguma forma diferentes. Rute deixa seu lar em Moabe e viaja para Israel, onde conhece Boaz, que logo se tornará seu marido. Um poço é mencionado de forma indireta quando eles se encontram (Rute 2:9).

Vemos elementos semelhantes em partes anteriores do Antigo Testamento. Em Gênesis 24, o servo de Abraão deixa sua terra e vai para outro país, onde encontra Rebeca, futura esposa de Isaque, junto a um poço. Em Gênesis 29, Jacó viaja para longe de sua casa e encontra sua esposa Raquel junto a um poço. Em Êxodo 2, Moisés deixa o Egito e encontra sua esposa junto a um poço.

Em todos esses casos, as histórias são parecidas com a encontrada em Rute, mas contêm pequenas diferenças. Por exemplo, geralmente são homens que viajam saindo de Israel, enquanto Rute é uma mulher viajando para Israel. Ainda assim, as semelhanças entre Rute e essas outras histórias provavelmente existem porque o autor está utilizando um antigo padrão narrativo, chamado pelos estudiosos modernos de “cena-tipo” (type-scene).





As cenas-tipo são um estilo narrativo em que determinadas histórias seguem uma estrutura básica, enquanto os detalhes são modificados de acordo com a história específica que está sendo contada. No caso das histórias mencionadas acima, aqueles que as ouviam antigamente sabiam que, quando um homem ia para outro país, encontrava uma mulher junto a um poço e obtinha água desse poço, aquilo provavelmente se tornaria uma cena de noivado de algum tipo.

Nessas histórias, a mulher frequentemente corria para casa para contar à família, e então eram feitos os arranjos para o casamento entre o homem e a família dela.

Mas o público antigo sabia que deveria prestar atenção em algo mais nessas histórias. Cada versão possuía diferenças, e essas diferenças permitiam que a cena-tipo se adaptasse às circunstâncias históricas de cada personagem e, talvez ainda mais importante, transmitisse um significado mais profundo ao público.

O estudioso bíblico Robert Alter observou que, na história de Isaque, por exemplo, é a mulher quem tira água do poço, e não o homem. Isso antecipa o que acontecerá mais tarde na narrativa, quando Rebeca toma a iniciativa para garantir que seu filho escolhido, Jacó, receba a bênção de Isaque em vez de Esaú.

Como afirma Alter: “Rebeca se tornará a mais astuta e influente das matriarcas, e por isso é totalmente apropriado que ela domine sua cena de noivado.”

As diferenças na cena do poço antecipavam diferenças que surgiriam posteriormente na narrativa.

Outro bom exemplo pode ser visto na história de Moisés. Moisés precisa ajudar as mulheres junto ao poço a lidar com intrusos antes de poder tirar água para sua futura esposa (Êxodo 2:15–17). Isso antecipa aquilo que Moisés precisará fazer mais tarde. Ele terá de libertar seu povo dos opressores no Egito, assim como libertou as mulheres dos homens que as importunavam junto ao poço.

De forma semelhante, Jacó precisa remover a pedra da boca do poço antes de conseguir água para os rebanhos de sua futura esposa, Raquel (Gênesis 29:10). O esforço que Jacó faz para mover a pedra antes de poder dar água aos rebanhos de Raquel combina com o esforço que ele precisará fazer antes de se casar com ela: sete anos de trabalho (Gênesis 29:20).

Como se presumia que o público conhecia essas cenas-tipo e passava a esperá-las em determinadas situações, os autores bíblicos podiam trabalhar com as expectativas dos ouvintes, modificando-as de maneiras únicas.

Por exemplo, em 1 Samuel 9, Saul vai para longe de casa procurando os animais perdidos de seu pai. No versículo 11, ele encontra moças que saíam para tirar água de um poço. O público provavelmente esperava que uma cena-tipo de poço acontecesse. Porém, nada disso ocorre. Saul apenas pede informações às mulheres e segue seu caminho (versículos 11–14).

Isso antecipa o que acontecerá mais tarde com Saul, cujo reinado será interrompido prematuramente, assim como sua cena de noivado não chegou a se concretizar.

Até mesmo o Novo Testamento apresenta uma cena-tipo envolvendo uma mulher junto a um poço. Em João 4:3–7, Jesus viaja para Samaria e encontra uma mulher junto a um poço. No entanto, as coisas não acontecem como o esperado.

O casamento é mencionado, mas o foco passa a ser os casamentos anteriores da mulher (ou a ausência de casamento com o homem com quem ela vivia naquele momento) (João 4:17–18).

Semelhante a outras cenas-tipo, ela vai à cidade e conta às pessoas o que aconteceu, mas para testificar Dele, e não para casar-se com Ele (João 4:28–29).

Essa cena enfatiza o novo tipo de relacionamento de convênio que Jesus estabeleceria com todas as pessoas, e não apenas com uma única mulher.

Rute e o convite para fazer parte de Israel

Em Rute, muitos elementos são invertidos em comparação com os exemplos anteriores. Em Rute 2:9, Boaz diz a Rute que os jovens tirarão água do poço para ela, invertendo algumas das cenas em que as jovens são responsáveis por buscar a água.

Caso o leitor não tenha percebido a referência aos patriarcas, Rute 2:11 faz uma clara alusão a Gênesis 12:1, quando Abraão é chamado para partir para uma nova terra:

“Deixaste teu pai e tua mãe, e a terra onde nasceste, e vieste para um povo que dantes não conheceste.”

Assim, Rute torna-se semelhante aos patriarcas que deixaram tudo para seguir a Deus.

Depois da conversa, Boaz convida Rute para compartilhar uma refeição com ele, lembrando os banquetes que frequentemente encerravam cenas-tipo semelhantes.

Além disso, compreender essa cena-tipo ensina algo importante sobre Deus.

No livro de Rute, Rute, a moabita, pertencente a um povo que historicamente mantinha relações difíceis com Israel, é comparada favoravelmente aos patriarcas.

Em um mundo frequentemente hostil aos estrangeiros, esse texto é um lembrete inspirador de que Deus está disposto a aceitar qualquer pessoa que venha a Ele e guarde Seus mandamentos, independentemente de sua origem étnica ou cultural.

O fato de a direção da viagem ser invertida e de Rute, uma mulher gentia, vir para Israel para seu noivado também pode servir como metáfora das bênçãos reservadas a todos aqueles que são adotados na casa de Israel, enquanto Israel retorna de sua dispersão durante o período de fome (ver Rute 1:1–2).

Em um mundo que muitas vezes pode ser polarizado e hostil para com aqueles que são diferentes, o livro de Rute nos lembra que Deus ama os gentios tanto quanto ama os israelitas e ensina todos os que leem esse livro a demonstrarem o mesmo amor a todas as pessoas ao seu redor.

Fonte: Scripture Central

Veja também

Post original de Maisfé.org

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *